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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

JOSE MAURO

 



No Brasil, na década de 90, enquanto os discos de vinil de artistas como Joyce, Grupo Azymuth, Gerson King Combo, Miguel de Deus, Os Brazões, Arthur Verocai e Marcos Valle eram deixados às traças nas estantes de sebos, uma turma estava bem atenta ao que tinha por aqui. Djs e produtores musicais da Europa e dos Estados Unidos estavam ligados na musicalidade com a inegável marca brasileira de suingue, agito, percussão e ricos arranjos que poderiam cair muito bem nas pistas de dança e em futuras produções do universo do Hiphop e música eletrônica. Dito e feito! Com o tempo, esses artistas brasileiros, até então desconhecidos do grande público, encontraram não só o reconhecimento, mas um novo mercado no exterior, em festivais e casas de jazz, com a gravação de material inédito e em colaborações com jovens artistas. Uma possibilidade que o cantor, violonista e compositor José Mauro Soares da Cunha não teve a chance de aproveitar.


Objeto raríssimo e presente na lista de desejo de muitos Djs, produtores e colecionadores de LPs, o álbum Obnoxious — José Mauro — originalmente lançado em 1970, teve que esperar longos anos até uma reedição em 2016. A nova versão foi lançada pelo selo do Reino Unido, Far Out. Mesmo depois de tanto tempo, a iniciativa foi um sucesso. O nome de José Mauro começou a circular entre os Djs mundo afora, e chegou aos ouvidos do DJ e Produtor inglês Gilles Peterson, curador e dono de um dos programas com mais audiência nas rádios britânicas e grande conhecedor da música popular brasileira. Na icônica edição de verão da Revista Q, em que grandes nomes da cena musical se reuniram para produção da lista com “354 Albums To Blow Your Mind”. (354 albuns para fazer sua cabeça”. Gilles rasgou elogios ao Disco Obnoxious “Os discos psicodélicos brasileiros como esse, feitos num país sob ditadura, são uma fonte de fascinação. Enquanto muitos músicos brasileiros fugiram do regime autoritário, José Mauro ficou e produziu grande música, como a desse disco”


Durante anos, acreditou-se que José Mauro estava morto. Rumores em blogs e seções de comentários circularam de que o misterioso gênio brasileiro havia morrido em um acidente de carro ou “desaparecido” pela junta militar brasileira na década de 1970. Até 2020 esse mistério persistia. O descobridor de Obnoxious e dono dos direitos sobre as gravações do disco, o DJ e produtor Joe Davis, dono da Far Out, dizia simplesmente não saber do paradeiro de José Mauro.


“Eu não morri nada, estou vivinho. Não sei quem inventou isso”, indignou-se, em entrevista ao blog da Far Out, o próprio José Mauro, hoje com 72 anos de idade, vivendo em um condomínio simplório em Vargem Pequena, bairro afastado da Zona Oeste carioca — e não “em uma favela”, como rezavam outros boatos. Conectado a Joe Davis graças ao contato feito com o inglês por um vizinho músico, o carioca conseguiu enfim, com a ajuda de sua família e de advogados, negociar o recebimento dos direitos por Obnoxious e por A viagem das horas — seu segundo LP, de 1976, que também foi relançado pela Far Out em todas as plataformas de streaming, CD e LP no início de 2021


Até entre os músicos e produtores da época, poucos sabiam acerca de José Mauro. Sua contemporânea, a cantora Joyce, por exemplo, tem a memória escassa e antiga de “um garoto muito talentoso, com um provável futuro brilhante como compositor”. Aluno de Baden Powell, apreciador de Edu Lobo, Villa-Lobos e Tom Jobim, desde muito novo José Mauro notou seu dom de compor, mas só começou a exercitá-lo de fato depois de conhecer, em 1969, aquela que seria sua grande parceira. Uma menina que tinha acabado de sair do colégio e se dividia entre sonhos artísticos e jornalísticos: Ana Maria Bahiana.


“O Zé era um cara extremamente emotivo e parecia um eremita da música. O negócio dele era ficar no seu quartinho, no Jardim Botânico, compondo”, contou para a Far Out, diretamente de Los Angeles, onde vive desde os anos 1980. Bahiana, escritora de muitos livros sobre música, diretora do Museu do Som e Imagem do Rio de Janeiro e uma das mais prestigiadas jornalistas de música do Brasil. “Eu não dava textos meus, só ideias, e dez minutos depois ele tinha o coração da música, expressando a ideia. Outras vezes, era o contrário. Ele dizia: ‘Essa palavra é maravilhosa, vamos fazer uma música com ela’. E eu tinha de criar todo um universo para aquela palavra. Essa criatividade dele, romântica e espiritual, encaixava com o momento que eu estava vivendo. Chegou a hora em que a gente compunha por espiritismo, ele dava um acorde e eu traduzia em letra


Um ano antes, essa parceria tinha chamado a atenção do produtor Roberto Quartin (1943–2004), responsável pelo lançamento de discos icônicos da música brasileira, como o Coisas (1965), de Moacir Santos, e Os afro sambas (1966), de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Em 1967, Roberto Quartin criou o Selo Quartin e contratou José Mauro para gravação de dois LPs. O selo foi responsável pela reunião de um time de peso para formação da banda que acompanharia José Mauro nas gravações. Os arranjos foram do maestro Lindolfo Gaya e a banda de estrelas tinha o saxofonista Paulo Moura, o baterista Wilson das Neves, o flautista Altamiro Carrilho e o pianista Dom Salvador, entre outros.


Gravado em 1970 nos estúdios Odeon no Rio de Janeiro: mesmo tempo e lugar de todas as músicas que já gravou, o segundo disco de José Mauro, A Viagem Das Horas, só foi lançado seis anos depois, curiosamente com várias faixas já lançadas através do primeiro álbum — Obnoxius. Finalmente, mais de meio século depois, A Viagem Das Horas será lançado com três faixas inéditas, “Rua Dois”, “Moenda ‘’ e “ Variação Sobre Um Antigo Tema ”, como Mauro e Quartin pretendiam inicialmente.


Produzido sob a escuridão do autoritarismo militar brasileiro, do qual muitos artistas haviam fugido ou sido exilados, José Mauro e sua companheira de composição Ana Maria Bahiana, combinaram seu interesse comum pelo Candomblé — um sincretismo das religiões tradicionais da África Ocidental e do Catolicismo Romano — com a MPB, folk psicodélico e música orquestral. Expressando uma resposta espiritual ao mundo em que se encontravam, o resultado foi uma música sacrossanta de pura transcendência. “Encontrando nosso lugar em um país sob uma ditadura brutal, e não acreditando na guerra civil nem no fascismo, fazíamos parte de uma geração em trânsito, em busca de outra opção” relatou Ana Maria Bahiana.


“O José Mauro era muito desconfiado, sempre estava com receio de que iam roubar a música ou não iam tratá-lo direito”, recordou-se Ana Maria, que viu a parceria esfriar ainda em 1971, quando resolveu deixar a música de lado e investir no jornalismo. “Vi brigas homéricas dele com o Gonzaguinha, que era bem político. O José Mauro era um romântico, estava sempre falando dos mundos emocionais. Ele é um poeta. Onde ele estava feliz era com o violão, compondo.”

Ocorre que, nesse período, J. Mauro enfrentou complicações de saúde e foi forçado a parar de tocar completamente. “Meu corpo me empurrou para longe da música, a saúde se tornou um obstáculo para mim. Se eu tivesse força para continuar compondo, eu teria sempre focado em alcançar um senso de beleza, um senso de maravilha.”


“Depois do meu segundo álbum, comecei a trabalhar com música para peças teatrais, tanto como compositor quanto como diretor musical, especialmente na prestigiosa Escola de Teatro Tablado do Rio. Eu também me dediquei ao ensino de violão, e era muito bom nisso. Eu tinha uma longa lista de espera de alunos em potencial” disse Mauro, que foi professor de cantores como Ruy Maurity e Olivia Byington.

Corta para os anos 1990. Depois de longos anos sem ter notícias de José Mauro, Ana Maria Bahiana recebe, de surpresa, em seu celular uma ligação da terra da rainha, de um amigo jornalista da BBC de Londres, Thomas Pappon. “Ele estava desconfiado de que tinha tomado um ácido poderoso, porque estava ouvindo minha voz em uma música que tocava em uma boate que ele foi com os amigos” contou ela. Não era uma viagem alucinógena do jornalista Thomas. De fato, era a narração que Bahiana tinha feito, a pedido de Roberto Quartin, para “Exaltação e lamento do último rei”, que entrou no álbum Obnoxious.


A chegada da música às pistas inglesas foi por culpa de Joe Davis, que encontrou o LP de José Mauro nas prateleiras de uma seção de saldos de uma loja de discos no Rio de Janeiro nos anos 1980. “Era um disco maravilhoso, que eu nunca tinha visto em meus fornecedores em São Paulo, acabei comprando vários outros do selo Quartin”, contou ele. De volta ao Rio, por volta de 1992, Davis foi apresentado a Roberto Quartin e com ele criou uma relação que o levou a intermediar o contrato para o selo inglês Mr Bongo relançar o Obnoxious


Curiosamente, José Mauro soube, através de um amigo que “turistava” por Londres que seu disco tinha saído em CD, mas não se preocupou muito em investigar quem tinha realizado e produzido o relançamento. “Eu me senti bem, porque soube que minha música começava a ser escutada”, justificou. Paralelo a isso, Joe Davis (Far Out) seguia achando que José Mauro havia realmente falecido. “Mas aí depois a Ana Maria Bahiana me garantiu que ele estava vivo. Consegui o número de telefone dele, mas ele nunca me respondeu. De repente, do nada, no meio da pandemia, um rapaz chamado Guilherme Esteves, que vivia perto do José Mauro, me ligou e disse que ele não estava muito bem.”


Acometido pelo mal de Parkison, José Mauro ficou incapacitado de tocar violão e leva uma vida pacata com a aposentadoria do INSS e apoio familiar. “Minha vida hoje está simples e normal, espero que o disco faça bastante sucesso”. Graças ao contato feito por Joe Davis, o carioca conseguiu enfim, com a ajuda de sua família e de advogados, negociar o recebimento dos direitos autorais por Obnoxious e por A viagem das horas.

JOSE MAURO - QUARTIN [ 1997 ]